A periferia saiu à rua por uma Vida Justa

É já este sábado, dia 1 de abril, que o movimento Vida Justa sai pela segunda vez à rua com a agenda da habitação e direito à cidade. O ponto de encontro será a Alameda D. Afonso Henriques (junto às escadarias do antigo Cinema Império/atual Igreja Universal do Reino de Deus), em Lisboa, pelas 14h30. Desta vez, o Vida Justa junta-se à manifestação “Casa para Viver”, em prol de casas para todos os bairros, num dia em que a Europa também o faz, através de uma ação europeia pelo Direito à Habitação, coordenada pela European Action Coalition for the Right to Housing and the City. 

Aproveitamos o momento para dar a conhecer a particularidade do movimento Vida Justa que iniciou a sua intervenção no espaço público a 25 de fevereiro de 2023. Este movimento é composto por moradores dos bairros da periferia de Lisboa, assim como por pessoas de outros movimentos sociais e cidadãos de vários setores, que se juntam para alertar para situações de precariedade partilhadas por muitos deles.

Vânia Andrade do coletivo Mulheres Negras Escurecidas esteve na primeira manifestação do movimento Vida Justa, no dia 25 de fevereiro, que decorreu entre o Marquês de Pombal e a Assembleia da República. Não fazendo parte do coletivo Vida Justa participou ativamente na manifestação, lendo o manifesto consciente de que fazia parte de uma causa maior. Em entrevista à Afrolis dá-nos a sua visão do movimento.

Afrolis: Como defines o coletivo Mulheres Negras e Escurecidas? E de que necessidade surgiu a ideia da sua criação?

Vânia Andrade: O coletivo Mulheres Negras Escurecidas, nasce durante a pandemia, muito da necessidade de nos encontrarmos, enquanto mulheres – a maioria – que nasceram em Portugal – outras nem por isso – e muito da vontade de nos encontrarmos e trocarmos experiências, criar um lugar ou um espaço seguro, fosse ele digital, nas redes sociais ou até mesmo um grupo de WhatsApp.  Então foi muito no sentido de criar intimidade entre mulheres negras, que nasceram em Portugal e fora de Portugal e podermos nos comunicar e trocarmos não só experiências, mas muitas vezes, também cultivar o autocuidado umas com as outras. 

A: O coletivo Mulheres Negras e Escurecidas é um dos vários subscritores do manifesto Vida Justa. O que vos fez assinar o manifesto e de que forma as questões ali levantadas se relacionam com as áreas de intervenção do coletivo de mulheres negras?

VA: Ninguém se opôs a assinar o manifesto. Todas disseram, “sim, temos de assinar.” Até porque algumas já vivem nessa carência, não de habitação, mas muitas vezes de condições para suportar o que é a habitação entre outras coisas. E, para nós, sabermos que há pessoas em bairros sociais, fora dos bairros sociais, pessoas na rua, a sofrerem todas estas situações, que muitas de nós já vivemos, ou sabemos de alguém ao nosso lado [que vive], fazia todo o sentido nós assinarmos e irmos também à manifestação. Até porque o movimento “Vida Justa” não é só para quem não tem habitação. Nós sentimos que dentro das nossas condições sejam elas iguais ou diferentes das de outras pessoas, nós também queremos. Eu senti que era isso, era gritar por mim, por aquilo que eu quero enquanto “Vida Justa” e por outras pessoas, que no fundo acho que nos tornámos um coletivo naquela manifestação. Então para nós, mulheres negras escurecidas, tem feito muito sentido, não só falarmos ou estarmos juntas e tratarmos das nossas experiências enquanto mulheres negras, porque assim que passamos a porta nós também somos pessoas que pagam renda; que têm trabalhos precários; que estão a estudar e a trabalhar ao mesmo tempo; muitas vezes, não conseguem terminar os mestrados, porque estão a trabalhar imenso; trabalham a recibos verdes, são despedidas. Tudo isso também nos toca, então, o direito à “Vida Justa” para nós é mais do que um manifesto social é também um manifesto pessoal. 

Manifestação Movimento Vida Justa, 25/02/23, Lisboa. Foto: Julia M. Tavares

A: Tendo em conta que a manifestação foi no centro de Lisboa, apesar de uma organização essencialmente de bairros periféricos, que pessoas se deslocaram à Assembleia da República para marcar o seu protesto?

VA: Senti que houve uma presença forte de pessoas que normalmente não têm disponibilidade, porque estão a trabalhar, para ir às manifestações, o que acontece muito. Independentemente de ser sábado, a maioria das pessoas da periferia não pode estar presente. O que eu senti é que, para além da manifestação, houve todo um trabalho feito antes de consciencializar estas pessoas para que elas pudessem estar presentes; para que elas percebessem o quanto era importante elas estarem presentes. Tanto que eles fizeram uma série de vídeos onde nós podíamos ouvir, na primeira pessoa, o que se estava a passar, como pagavam ou não pagavam a renda, e eu vi algumas destas pessoas na manifestação. Já não é a primeira vez que eu vou a uma manifestação, e quando tu vais a uma manifestação tu consegues olhar à tua volta, e vês as pessoas que estão ao teu lado, que tu já conheces, mesmo que nunca te tenhas encontrado ou não saibas pessoalmente quem são. Mas deu para ver que muitas das pessoas que lá estavam não são ativistas assíduos, mas são ativistas na sua vida de luta diária, mesmo sem o saberem. E eu percebi que até mesmo quando se fez o palco, subiram duas pessoas que falaram um pouco sobre a sua situação, e o motivo por que lá estavam. E eu tive também oportunidade de estar um pouco, pedir assinaturas, e conversei com algumas pessoas que são do bairro, que são da periferia e que foram chamadas e acho que isso foi o mais importante. Elas foram chamadas a estarem presente, normalmente isso não acontece. Nós colocamos nas redes sociais, partilhamos e tal, e as pessoas vão se quiserem. Aí, não, convidaram-se as personagens mais importantes para que pudessem manifestar-se, e para que pudessem estar presentes. Eu acho que isso foi visível porque antes também se fez um grande trabalho em que se colocou a vida dessas pessoas, de alguma forma, à frente já antes da manifestação, para que se pudesse ver se estas pessoas estão realmente a viver isto. 

A: E acreditas que é preciso ver para crer que a precariedade existe e que é um problema que já não afeta apenas os bairros de lata?

VA: Eu nasci nos “Húngaros”, num dos maiores bairros de lata dos anos noventa, em Algés, Miraflores. Então eu já sei o que é isso de os meus pais terem de construir a casa deles, de a casa ser mandada abaixo, tentar-se construir novamente, ter que se montar uma… eu lembro-me que o meu pai construi um… tínhamos umas madeiras altas… enquanto o meu pai fazia a construção, era a minha mãe grávida e eu pequenina, que ajudava o meu pai. O meu pai construiu, não foi tudo sozinho, foi grande parte, fez algumas coisas sozinho, o máximo que ele podia. Depois do trabalho, os dois, a construírem a nossa casa em Miraflores. Ou seja, a falta do direito à habitação já é uma coisa que me tem vindo a perseguir. Hoje as coisas mudaram, segui um caminho em que consigo ter a minha própria habitação, mas eu cresci a ver pessoas que não conseguiam ter habitação e lhes era… a câmara ia lá e destruía. E pessoas que insistiam e queriam ficar. Tanto que o que nós vemos hoje, se não me engano, no bairro do Torrão, é uma coisa que a gente já via nos anos noventa. O problema é que agora estas pessoas vão diretamente para a rua. Naquela altura diziam às pessoas que não podiam construir mais um anexo, e iam lá e destruíam. Sorte é que a gente podia ir para casa de um vizinho, ou podíamos ficar porque ainda tínhamos o resto do anexo, onde podíamos continuar a viver. Mas há sempre mais um familiar que vem, tentamos construir… Então, eu acho que é mais do que certo que estas pessoas estivessem na manifestação, apesar de haver uma ideia, de se criar uma ideia completamente distorcida à vista das manifestações, eu fiquei feliz que se pudesse estar lá e gritar que a periferia saiu à rua.  

Manifestantes Vida Justa em frente à Assembleia da República. 25/02/23. Foto: Júlia M. Tavares

A: Muitas vezes, em manifestações, os homens assumem a dianteira. O cenário repetiu-se nesta manifestação ou houve mais espaço para a contributos de mulheres?

VA: Eu achei muito interessante, porque, na maioria das manifestações, nós temos sempre homens à frente. Esta não foi muito diferente, tínhamos homens à frente, muitos homens em cima do palco, curiosamente foi o momento do manifesto, se não estou em erro, foi o momento em que estiveram mais mulheres juntas em cima do palco. O manifesto é uma daquelas coisas… é crucial, porque é o momento em que se diz o motivo real por que se está lá. Foram mulheres que o leram, a Ilda da Associação Cavaleiros de São Brás, ela deu a sua palavra, transportou a sua ideia aos outros. Uma mulher mais velha, que nasceu em Cabo-Verde, mora num bairro social, ela sabe muito bem o que é não ter habitação. Eu também, a Khira também. A Khira é cantora. A Khira e a Ilda trouxeram um pouco daquilo que nós também somos, que é poesia, música, união. Ou seja, foi um manifesto muito além das palavras. E foi interessante que se tenha feito com mulheres.  

A manifestação de dia 1 de abril, na qual o movimento Vida Justa se junta à manifestação “Casa para Viver”, terá lugar em outras cidades do país: Aveiro, Braga, Coimbra , Porto e Viseu. 

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