Vidas Negras Importam: as vozes do Largo de S. Domingos

20150321-IMG_0053No dia 21 de Março, o Largo de São Domingos ficou repleto de pessoas que marcaram o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial com um protesto que alterou a dinâmica normal do Largo. A AfroLis quis saber o que pensam aqueles que, normalmente, frequentam o Largo de S. Domingos, um largo que há vários séculos é um ponto de encontro para comunidades africanas, como é descrito no livro “Lisboa, cidade africana Percursos e Lugares de Memória da Presença Africana Séculos XV – XXI” de Isabel Castro Henrique e Pedro Pereira Leite:

“Ontem como hoje, o Rossio e o Largo de São Domingos são os lugares do encontro preferidos pelos africanos. Se o Rossio era, para todos – incluindo os africanos -, o largo da feira onde tudo se comprava e se vendia, o local onde se podiam encontrar artesãos à espera de clientes, o espaço das muitas festas, das touradas, dos conflitos, das tabernas, do Hospital de Todos os Santos, dos muitos espetáculos como os autos-da-fé da Inquisição, a Praça da Figueira, ao lado, acolhia forasteiros que aí encontravam grandes feiras especializadas onde era possível tocar as produções nacionais e as mercadorias importadas. Entre as duas praças, mas ligado ao Rossio, o Largo de São Domingos foi o lugar onde homens e mulheres de África puderam encontrar desde finais do século XV acolhimento e apoio que tornaram menos dura a sua integração na sociedade lisboeta. Inserida no Mosteiro de São Domingos, a igreja do mesmo nome abriu as suas portas à primeira confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos(…). Hoje, os africanos continuam a fixar-se neste lugar, onde se cruzam línguas, religiões e culturas de África (…)”  

Vidas Negras Importam: “O que acha deste protesto?” Mussussane e Nené

Mussusane “Está muito bom. Fiquei contente. Porque, quando cheguei aqui, tratavam tão mal os imigrantes! Não estava nada bom.…” / Nené Djalo “Para ajudar os africanos, porque os africanos estão muito mal neste país. O problema do racismo para os africanos é muito mau. Nós ficamos muito contentes por vocês.”

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Vidas Negras Importam: “O que acha deste protesto?” Boubacar Baldé

“Com esta manifestação, sinto-me bem porque as palavras que eles estão a falar são verdades que a polícia praticou, principalmente no Largo do Rossio. (…) Portanto com esta manifestação eu sinto-me bem!”

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Vidas Negras Importam: “O que acha deste protesto?” Nene Baldé

“Não estou contra mas não estou a favor. Porque a crise que passamos em Lisboa é demais mas temos que suportar não são só os africanos, são todos, sejam brancos ou africanos. É no mundo. Não me posso defender só como africana, posso defender todos.  Vivo em Portugal há quase mais de 20 anos, temos de suportar. Tenho de suportar para cuidar dos meus filhos mais novos, por causa da educação deles na escola. O meu marido não tem saúde. A saúde dele só melhorou desde que está em Lisboa. No meu país em África, a saúde dele não estava bem. Mas o que eu peço é que liberem empregos, principalmente para as mulheres. Nós mulheres sofremos muito aqui em Lisboa. Tens filhos, tens família. Tu não podes andar para cima e para baixo, temos que ficar no meio. Pedimos em nome de Deus, dos governos português para aliviar este sacrifício, essa crise que acontece connosco. E é tudo, obrigada. Graças a Deus Portugal. Viva África! Vivo o Rossio!”

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A AfroLis quis também ouvir as vozes de quem se deslocou ao largo especialmente para o protesto:

 

Vidas Negras Importam: “O que acha deste protesto?” Piménio Ferreira

“É importante haver uma manifestação para que possamos juntar as nossas vozes e criar uma voz que possa ser ouvida. Uma voz que não fique ignorada. Uma voz que possa passar para além das barreiras do não vejo, não ouço e também não comento. “

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Vidas Negras Importam: “O que acha deste protesto?” Rui Pereira

“Eu vim porque é algo que a mim me toca pessoalmente. Eu, pessoalmente, nunca senti injustiça, nem brutalidade policial mas tenho amigos meus e familiares que já sofreram isso na pele. Sei que é uma coisa que existe.”

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