“ – Eu sou, porque tu és.”

Bom dia, boa tarde ou boa noite jovem leitor (a)! 

Espero-vos bem. 

Consta nos autos da memória de Antónia, que houve um dia em que ela foi pega de surpresa. O seu filho Miguel, um menino com 11 anos de idade, lhe relatou atitudes disparatadas do seu novo professor. Antónia tinha ido à escola buscar Miguel como fazia habitualmente, era fim de tarde de uma sexta-feira e Miguel estava apavorado. É que ele desconhecia por completo o homem que se dirigiu a ele em plena sala de aula, como que a dizer que a porta da rua seria a serventia daquela casa. Não aconteceu só com Miguel. Jacinto também sofreu. Amigos de longa data, Jacinto e Miguel não estavam a compreender o que estava a se passar. O novo professor demonstrava a todo custo não gostar minimamente deles.

Demonstrava não acreditar que eles eram crianças capazes de aprender. Pois bem. Naquele mesmo dia, em que as duas crianças foram humilhadas em frente à porta da sala de aula, também foram caluniadas. É que o professor novo, após as suas façanhas, fez questão de ir correndo contar a uma professora de longa data, pertencente àquela casa, que ele estava muito preocupado porque tinha acabado de ser destratado por duas crianças mal-educadas. A professora Margarida que muito bem conhecia os seus alunos, quis saber quem eram as crianças de quem o professor falava. A professora Margarida ficou de queixo caído quando compreendeu que afinal o professor novo estava a lhe falar de Miguel e de Jacinto, que eram apenas as duas crianças mais tímidas daquela turma. Havia algum “mal-entendido”, com toda a certeza! Visto que Antónia, sempre foi uma mãe atenta e sempre fez questão de manter um diálogo bem próximo com a comunidade escolar, naquela mesma noite escreveu um e-mail à professora Margarida que era a professora titular da turma do Miguel.

Dois dias se passaram. O início da semana começou de pernas para o ar. Bastou Miguel adentrar na sala de aula, na aula do professor novo, para ser bisoiado por ele e pasmem! Miguel foi chamado a atenção na frente de toda a turma: “ – Eu já sei que contaste a tua mãe o que aconteceu na sexta-feira!”. Dali para uma reunião entre familiares e a comunidade escolar foi um salto.

Quarta-feira pela manhã. Antes do início da reunião, Antónia pode observar pela primeira vez, o professor novo e o seu olhar disparado fixamente para Antónia. Era como se quisesse deixar Antónia intimidada, mas o homem tremelicava o sobrolho esquerdo. Começou a andar de um lado para o outro, como se estivesse a tramar alguma coisa. De súbito, a reunião iniciou-se. Conversa vai, conversa vem, o facto é que Miguel se transformou em um aluno que só existia na cabeça do professor novo. Antónia e a professora Margarida, estavam perplexas. A direção da escola, nem tanto. Defendia com todas as suas forças o professor novo, visto que o agrupamento daquela escola-casa, não tinha conseguido um professor a tempo e a horas. Antónia calmamente desfazia as calúnias que o novo professor imputava ao seu filho Miguel. Para a professora Margarida, havia um mal-entendido, com toda a certeza.

Conversa vai, conversa vem, Antónia muito insatisfeita com o sucedido, visto que Miguel tinha um longo percurso naquela casa, comentou que o que estava a se passar ali era inadmissível. Estava profundamente desapontada com a escola, porque estava a compreender perfeitamente que Miguel e também o seu amigo Jacinto, estavam a ser vítimas de racismo por parte do professor novo. Ao referir o que para si estava a ser óbvio, ouviu logo a seguir por parte de todos os presentes, que naquela casa havia diversidade cultural, que tudo era um mal-entendido e que o professor novo iria se adaptar bem à escola! Antónia referiu que caso o seu filho Miguel voltasse a ser maltratado pelo professor novo iria denunciar às autoridades competentes.

A professora Margarida teve que voltar às suas tarefas escolares e pediu para se retirar daquele recinto. Estava nitidamente perturbada com o teor da conversação. Surpreendentemente, o professor novo, cheio de si, uma vez que a professora Margarida já não estava presente, num rompante, decretou para Antónia: “- Se fizer queixa, não vai dar em nada”. E aproximou o rosto do rosto de Antónia: “- Eu faço o que eu quiser”. A direção da escola a tudo assistiu como se nada fosse. Antónia saiu daquele recinto, aflita e indignada. Pois bem. Passaram-se alguns dias até que Antónia verificou que ao invés de haver melhorias, as situações só pioravam. Agora, não só o Miguel tinha o seu caderno a ser fotografado pelo professor novo, como o professor novo escrevia e-mails estranhos à Antónia, a referir que queria manter a proximidade. Antónia obteve apoio junto a pouquíssimos pais e mães dos colegas de Miguel.

Uma grande maioria de Encarregados de Educação, chegaram mesmo a afirmar que não tinham nada a ver com o que estava a se passar. Que se tratava de “assuntos individuais”. Não queriam saber e estavam “incomodados” em saber! Pois bem. Miguel já não tinha ânimo de ir para a escola. Não havia nenhuma justificação plausível, para o que estava a acontecer. Antónia compreendeu que aquela comunidade escolar, de facto parecia não existir. Fez queixa à entidade competente do Ministério da educação. A Dra. Mariana surgiu em cena após alguns dias. Foi enviada à escola para recolher os testemunhos de todos. A Dra. Mariana escutou Antónia e também escutou Alberto, pai de Miguel. Ao fim da escuta, quando Antónia e Alberto já estavam a ir-se embora, a Dra. Mariana, parou Antónia, lhe olhou nos olhos, tocou nos seus ombros e falou: “- Eu sou, porque tu és”. Antónia respondeu: “- Ubuntu! Conheço bem. Cresci a ouvir meu pai a falar sobre a segregação racial na África do Sul”. Pois que Dra. Mariana comunicou messianicamente à Antónia que não deveriam dar atenção para “assuntos fraturantes”. Que o passado não importava e que o que importava verdadeiramente seria pensar no futuro! Antónia estava perplexa. Alberto não estava a compreender o que estava a se passar.

Antónia ficou bastante indignada com a fala da Dra. Mariana. Já pressentia o que estava por vir. É que Antónia sabia perfeitamente que o passado histórico não podia ser negligenciado naquele contexto onde duas crianças negras, tinham sido humilhadas por um professor que tinha acabado de entrar naquela escola e onde aquele mesmo professor continuava a ter comportamentos racistas e autoritários com Miguel e que a filosofia africana Ubuntu jamais apagaria o passado histórico, muito pelo contrário. Pois bem. A Dra. Mariana escutou Miguel e os seus colegas. E pelo que pareceu também escutou o restante da comunidade escolar: o professor novo, a professora Margarida e a direção da escola. Passados alguns dias, houve uma nova reunião naquela escola-casa.

Horror dos horrores! O professor novo que tinha sido promovido ao cargo de professor titular da turma do Miguel, ditava que Miguel estava indo muito mal nos seus estudos e que por isto ele e a direção da escola cogitavam em inserir Miguel no ensino inclusivo! A direção da escola ausentou – se da reunião após insultar mais uma vez Antónia. A direção do agrupamento da escola referiu que na escola criança “não decidia nada”. Uma professora que respondia hierarquicamente pela adaptação do professor novo àquela escola-casa referiu que tudo seria fruto da “imaginação” de Antónia! Segundo a Sra. professora, o professor novo era uma pessoa fantástica que estava a se adaptar maravilhosamente naquele ambiente escolar. A Dra. Mariana, ao compreender que Antónia não iria aceitar engodos, chegou mesmo a bater com a mão sobre a mesa, a levantar-se e a referir de modo profundamente agressivo que em todo o seu tempo de trabalho, que nunca antes tinha encontrado uma encarregada de educação “autista”. Para a Dra. Mariana, a criança que estava a ser vítima de racismo e de autoritarismo, por parte de um professor, tinha que ter a “oportunidade de conhecer” o mesmo! Portanto, Antónia e Alberto, que estavam profundamente decepcionados e indignados com aquela comunidade escolar, teriam que decidir: ou mudavam Miguel de escola, ou de turma ou Miguel teria que ter mais uma “oportunidade” para conhecer o professor novo! 

“- Um bom Natal a todos!”. Fim da reunião. No caminho de ida para à porta da rua, a Sra. professora que respondia hierarquicamente pela adaptação do professor novo àquela escola-casa, chegou mesmo a referir que não entendia o que queríamos dizer quando dizíamos que em Portugal havia racismo, porque ela própria tinha uma “família angolana do coração”! Antónia e Miguel ficaram adoecidos naquele fim de ano. Pouco tempo depois, Antónia recebeu um e-mail onde constatou que por fim a queixa tinha sido “arquivada”. Antónia tinha feito queixa a mais uma entidade, à CICDR, mas obteve a certeza da inutilidade do exercício da sua cidadania: ficou tudo em águas de bacalhau. 

Consta nos autos da memória de Miguel, que apesar de ter sofrido e de ter perdido a turma que amava, que nesta vida é necessário que uma criança tenha voz e uma verdadeira proteção. Miguel superou aquele momento profundamente desagradável com o apoio da sua mãe, do seu pai, da sua família e dos seus amigos e amigas, seguindo em frente, a desenvolver todo o seu potencial. Quando uma criança negra se desenvolve, todas as crianças negras se movimentam com esperança e todas as crianças brancas, igualmente. “ – Eu Sou, Porque Tu És”. 

Jovem leitor (a), é fundamental que todxs possamos nos questionar e tentar responder:

  1. O que ocorre com crianças e jovens que são tornadas vítimas de práticas discriminatórias em contexto escolar, quando romantizamos estas mesmas práticas, perante as crianças, os jovens e as suas famílias? 
  2. Quais são os princípios da filosofia africana Ubuntu e estes princípios podem ser subvertidos, em contextos onde há prática de racismo? 
  3. Como interpretamos uma “comunidade escolar” nestes nossos tempos? 

 

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